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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Recordar Eugénio de Andrade

No mês em que passam 6 anos da morte de Eugénio de Andrade, é urgente recordar o poeta (é sempre urgente recordá-lo, na verdade).

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos.
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário.
Era no tempo em que os meus olhos
eram os tais peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade:
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus

segunda-feira, 13 de junho de 2011

‎123º ANIVERSÁRIO DE FERNANDO PESSOA

Fernando António Nogueira Pessoa (Lisboa,... 13 de Junho de 1888 — Lisboa, 30 de Novembro de 1935), mais conhecido como Fernando Pessoa, foi um poeta e escritor português.
É considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, e da Literatura Universal, muitas vezes comparado com Luís de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou a sua obra um "legado da língua portuguesa ao mundo".Por ter crescido na África do Sul, para onde foi aos seis anos em virtude do casamento de sua mãe, Pessoa aprendeu a língua inglesa. Das quatro obras que publicou em vida, três são na língua inglesa. Fernando Pessoa dedicou-se também a traduções desse idioma.
Ao longo da vida trabalhou em várias firmas como correspondente comercial. Foi também empresário, editor, crítico literário, ativista político, tradutor, jornalista, inventor, publicitário e publicista, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária. Como poeta, desdobrou-se em múltiplas personalidades conhecidas como heterónimos, objeto da maior parte dos estudos sobre sua vida e sua obra. Centro irradiador da heteronímia, auto-denominou-se um "drama em gente".

 Sonho. Não sei quem sou neste momento

Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
 
Minha alma não tem alma.
Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.

Não tenho ser nem lei.
Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,

Coração de ninguém.

domingo, 1 de maio de 2011

Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe.

Tudo porque já não sou
o menino adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha - queres ouvir-me? -
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal...

Mas - tu sabes - a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.


Eugénio de Andrade, in «Os Amantes Sem Dinheiro»

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial da Poesia

Quem Morre?


Morre lentamente quem não viaja,
quem não lê,
quem não ouve música,
quem não encontra graça em si mesmo.

Morre lentamente quem destrói o seu amor-próprio,
quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem se transforma em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos,
quem não muda de marca,
não se arrisca a vestir uma nova cor
ou não conversa com quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.

Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro sobre o branco
e os pontos sobre os "is"
em detrimento de um redemoinho de emoções
justamente as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos
dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz com o seu trabalho,
quem não arrisca o certo pelo incerto para ir atrás de um sonho,
quem não se permite pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente, quem passa os dias queixando-se
da sua má sorte ou da chuva incessante.

Morre lentamente, quem abandona um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece
ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves,
recordando sempre que estar vivo exige um esforço muito maior que o simples facto de respirar.
Somente a perseverança fará com que conquistemos um estágio esplêndido de felicidade.

Pablo Neruda

domingo, 20 de março de 2011

A Poesia está na Rua

A partir de amanhã, dia 21 de Março, a Poesia sairá à rua e provocará os mais distraídos. Este ano o tema é “Erotismo e Romantismo” e durante nove semanas e meia a sensibilidade andará à flor da pele. Consulte aqui o programa e desperte os sentidos e emoções.

Dia do Pai

Com um dia de atraso, aqui fica a nossa homenagem a todos os pais com um belíssimo poema de Pablo Neruda:


O Pai


Terra de semente inculta e bravia,
terra onde não há esteiros ou caminhos,
sob o sol minha vida se alonga e estremece.

Pai, nada podem teus olhos doces,
como nada puderam as estrelas
que me abrasam os olhos e as faces.

Escureceu-me a vista o mal de amor
e na doce fonte do meu sonho
outra fonte tremida se reflecte.

Depois... Pergunta a Deus porque me deram
o que me deram e porque depois
conheci a solidão do céu e da terra.

Olha, minha juventude foi um puro
botão que ficou por rebentar e perde
a sua doçura de seiva e de sangue.

O sol que cai e cai eternamente
cansou-se de a beijar... E o outono.
Pai, nada podem teus olhos doces.

Escutarei de noite as tuas palavras:
... menino, meu menino...

E na noite imensa
com as feridas de ambos seguirei.

Pablo Neruda, in "Crepusculário"
Tradução de Rui Lage

domingo, 6 de março de 2011

História de Vida

“Leiam muito e escrevam, leiam e escrevam”.
Foi esta a mensagem que a nossa convidada, D. Carolina Ruão, mãe do professor e nosso colega Camilo Ruão, transmitiu, na 4ª feira na Biblioteca Escolar, aos adultos que frequentam diferentes cursos na escola no âmbito das Novas Oportunidades.
Esta grande senhora de “quase 88anos”, como gostava de frisar, veio apresentar o seu livro recentemente editado (Edição de autor) “Quatro Estórias para ti Avô”. Como por magia e numa sala completamente cheia, fez-se silêncio e deu-se início a um período de encantamento. Baixinho, com muita ternura, contou um pouco da sua “História de Vida” e, com palavras serenas, muita inteligência e, até, com algum humor, hipnotizou a plateia declamando alguns dos seus poemas. Explicou que não o fazia de memória, porque “memória tenho pouca”, disse ela, mas que aquelas palavras eram dela, eram a sua essência e brotavam com naturalidade do seu ser.
Explicou a importância da escrita na sua vida, como esta necessidade sempre a acompanhou, como foi “rabiscando” sempre uns papéis que guardava e, outros, que acabava por deitar fora, até que, aos 85 anos, decidiu inscrever-se na Universidade Sénior… A parir daqui é fácil adivinhar e todos percebemos que nunca é tarde para começar. Mas esta conclusão simplista não é suficiente para compreendermos que:

“Nada se faz por acaso
A isto já eu cheguei,
É o destino traçado
Ou Deus que orienta o que faço?
Isso não sei.

Sei que é um privilégio
Escrever história nesta idade
Sem ter regras de colégio,
Pois tudo faço em liberdade.”

A sua sensibilidade tocou-nos a todos, aliás uma sensibilidade que a própria não sabe “se adequada à sua idade”, pois como diz no prólogo do seu livro “(…) 87 anos já não me permitem que mostre o que me vai na alma como se estivesse a atravessar o meu período de juventude”. Mas nós, que assistimos a este momento como alheados no tempo, sabemos que sim, que este sentir não tem idade.
Não foi a escola que teceu “saberes e afectos”, mas foi a escola, na pessoa da D. Carolina que tornou possível um momento único e inesquecível.
Obrigada, é uma palavra demasiado singela para agradecer todos os sentimentos e emoções que esta maravilhosa senhora nos fez sentir. Ficamos à espera dos próximos livros. Ficamos à sua espera.

terça-feira, 1 de março de 2011

Rasgos de Emoção

Às vezes a Poesia ganha vida, outras vezes é a própria vida que se transforma em Poesia. Ontem, na Biblioteca Escolar, a professora Maria José Guimarães deu vida à sua poesia e partilhou com os adultos que frequentam os cursos EFA e UFCDs o seu novo livro “Rasgos de Emoção”.

A autora apresentou o seu universo poético  numa linguagem simples, explicou como a necessidade da escrita se materializa no papel e lápis e a importância da poesia na sua vida. As emoções vividas e sentidas ganham forma de poema e, às vezes, as ilustrações acontecem como a recriação das palavras em formas estilísticas.

Os adultos foram convidados a declamar poemas e, em seguida, a recriar alguns desses poemas a partir de uma actividade sugerida pela autora. Parece que de poeta e de louco todos temos um pouco! Os adultos aderiram com entusiasmo e mostraram talento em ‘jogar’ com as palavras. Mais um momento de declamação se seguiu em que a partilha de emoções se consubstanciou em palavras como Liberdade, Amor e Paz.

A Poesia a revelar o que de mais importante existe em cada um de nós.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Carta - Dia dos Namorados

Carta (Esboço)

Lembro-me agora que tenho de marcar um
encontro contigo, num sítio em que ambos
nos possamos falar, de facto, sem que nenhuma
das ocorrências da vida venha
interferir no que temos para nos dizer. Muitas
vezes me lembrei de que esse sítio podia
ser, até, um lugar sem nada de especial,
como um canto de café, em frente de um espelho
que poderia servir de pretexto
para reflectir a alma, a impressão da tarde,
o último estertor do dia antes de nos despedirmos,
quando é preciso encontrar uma fórmula que
disfarce o que, afinal, não conseguimos dizer. É
que o amor nem sempre é uma palavra de uso,
aquela que permite a passagem à comunicação ;
mais exacta de dois seres, a não ser que nos fale,
de súbito, o sentido da despedida, e que cada um de nós
leve, consigo, o outro, deixando atrás de si o próprio
ser, como se uma troca de almas fosse possível
neste mundo. Então, é natural que voltes atrás e
me peças: «Vem comigo!», e devo dizer-te que muitas
vezes pensei em fazer isso mesmo, mas era tarde,
isto é, a porta tinha-se fechado até outro
dia, que é aquele que acaba por nunca chegar, e então
as palavras caem no vazio, como se nunca tivessem
sido pensadas. No entanto, ao escrever-te para marcar
um encontro contigo, sei que é irremediável o que temos
para dizer um ao outro: a confissão mais exacta, que
é também a mais absurda, de um sentimento; e, por
trás disso, a certeza de que o mundo há-de ser outro no dia
seguinte, como se o amor, de facto, pudesse mudar as cores
do céu, do mar, da terra, e do próprio dia em que nos vamos
encontrar, que há-de ser um dia azul, de verão, em que
o vento poderá soprar do norte, como se fosse daí
que viessem, nesta altura, as coisas mais precisas,
que são as nossas: o verde das folhas e o amarelo
das pétalas, o vermelho do sol e o branco dos muros.

Nuno Júdice, in “Poesia Reunida”

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Fernando Namora - Coisas, Pequenas Coisas

Faz hoje 22 anos que Fernando Namora nos deixou.
Fernando Gonçalves Namora (Condeixa-a-Nova, 15 de Abril de 1919 - Lisboa, 31 de Janeiro de 1989) foi um escritor português.
Licenciou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra, carreira que exerceu na sua terra natal e nas regiões da Beira Baixa e Alentejo, vindo mais tarde a trabalhar no Instituto Português de Oncologia de Lisboa.
O seu volume de estreia foi Relevos (1938), livro de poesia onde se notam as influências do grupo da Presença. No mesmo ano, publicou o romance As Sete Partidas do Mundo, galardoado com o Prémio Almeida Garrett, onde se começa a esboçar o seu encontro com o neo-realismo, ainda mais patente três anos depois com a poesia de Terra no Novo Cancioneiro.

Coisas, Pequenas Coisas

Fazer das coisas fracas um poema.
Uma árvore está quieta,
murcha, desprezada.
Mas se o poeta a levanta pelos cabelos
e lhe sopra os dedos,
ela volta a empertigar-se, renovada.
E tu, que não sabias o segredo,
perdes a vaidade.
Fora de ti há o mundo
e nele há tudo
que em ti não cabe.

Homem, até o barro tem poesia!
Olha as coisas com humildade.

Fernando Namora, in "Mar de Sargaços"

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Que Há para Lá do Sonhar?


Céu baixo, grosso, cinzento
e uma luz vaga pelo ar
chama-me ao gosto de estar
reduzido ao fermento
do que em mim a levedar
é este estranho tormento
de me estar tudo a contento,
em todo o meu pensamento
ser pensar a dormitar.

Mas que há para lá do sonhar?

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Ser Poeta - Florbela Espanca

Florbela Espanca

Florbela Espanca nasce e morre a 8 de Dezembro. A 8 de Dezembro, nasce Florbela Espanca em Vila Viçosa e em1930, em Matosinhos, Florbela põe fim à vida. Aqui fica um dos seus poemas mais conhecidos:


Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
É ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!


É ter de mil desejos o esplendor
E não saber sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!


É ter fome, é ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim...
É condensar o mundo num só grito!


E é amar-te, assim, perdidamente...
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Sonhar com Fernando Pessoa

Fernando Pessoa morreu há 75 anos, mas a sua obra continua viva e a fazer-nos sonhar. Aqui fica um poema em sua memória.



Entre o sono e o sonho,

Entre mim e o que em mim
É o que eu me suponho,
Corre um rio sem fim.

 
Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas curvas viagens
Que todo o rio tem.

 
Chegou onde eu habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

 
E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre –
Esse rio sem fim.


In Poesia 1931-1935 e não datada , Assírio & Alvim, ed. Manuela Parreira da Silva, Ana Maria Freitas, Madalena Dine, 2006

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A Linguagem dos Afectos

Durante a Feira do Livro que se realizou na escola, o Centro Novas Oportunidades promoveu um Momento de Poesia para os adultos, convidando o Sr. Armando Cunha, a desenvolver o processo de RVCC de Nível Básico, para partilhar com outras pessoas o seu gosto pela leitura e pela escrita. Integrada no projecto Novas Oportunidades a Ler+, esta actividade permitiu aos adultos aperceberem-se que a leitura e a escrita não é apanágio de letrados, mas acessível a todos. Qualquer um pode experimentar.

Não se considerando poeta, Armando Cunha – O Flora - revelou às pessoas presentes que anda sempre acompanhado de um pequeno bloco onde vai anotando palavras e ideias que lhe vão surgindo no dia-a-dia, enquanto observa a realidade que o rodeia. Depois, os versos vão-se compondo na sua cabeça e só mais tarde os passa para o papel. O dicionário passou a ser, também, seu companheiro, na busca da melhor palavra para exprimir o que sente.

Residente em Lordelo, divulga alguns dos seus poemas no jornal local. Em sessão de Júri de Certificação declamou o poema: Voltar à escola.

Quando queria aprender
Fui trabalhar, vergar a mola
Agora que estou velho
Voltei a ir à escola

Vou de pasta não de sacola
Como na primeira classe
Nos bancos daquela escola
Senti um rubor na face

Tentarei ser dedicado
Seguir as aulas com agrado
Até me faz sentir saudades

Agora trago na mente
Esta ocasião excelente
Que é as Novas Oportunidades

O Flora, em 11-11-2009